

Há vozes que não se apagam com o tempo. Elas ficam guardadas na memória, nos discos, nas lembranças de uma juventude marcada por melodias simples, harmonias perfeitas e sentimentos verdadeiros. Regina Corrêa, cantora da formação original do Trio Esperança, nos deixou domingo, (11-01-2026), aos 79 anos, em Roma. Mas sua voz — doce, precisa e profundamente afetiva — segue viva na história da música brasileira e no coração de quem atravessou os anos 60 embalado pela Jovem Guarda.
Nascida no Rio de Janeiro, Regina Corrêa José Maria (14 de julho de 1946 – 11 de janeiro de 2026), a cantora cresceu em um ambiente onde a música era mais do que entretenimento: era linguagem cotidiana. Ao lado dos irmãos Mário Corrêa e Evinha Corrêa, ela formou ainda muito jovem o Trio Esperança, grupo que se tornaria um dos mais populares e queridos do Brasil no final dos anos 1950 e ao longo da década seguinte.
O que diferenciava o trio desde o início era a harmonia vocal impecável. Regina tinha papel fundamental nesse equilíbrio: sua voz sustentava melodias, criava climas e dava identidade ao grupo. Em um período em que o Brasil vivia profundas transformações culturais, o Trio Esperança oferecia leveza, romantismo e uma sonoridade moderna, dialogando com o pop internacional sem perder o sotaque brasileiro.
Com a chegada da Jovem Guarda à televisão, o Trio Esperança rapidamente se integrou ao movimento que transformaria a música jovem no país. Regina Corrêa passou a fazer parte de um universo que incluía nomes como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, participando de programas de auditório, festivais e especiais que paravam o Brasil.
As apresentações do trio chamavam atenção não apenas pelas músicas, mas pela postura elegante, pelos arranjos vocais sofisticados e pela conexão imediata com o público. Regina representava uma feminilidade serena, longe de excessos, mas cheia de presença e carisma — algo raro e muito valorizado naquele momento.

Entre os maiores sucessos do Trio Esperança estão músicas que atravessaram décadas e continuam sendo redescobertas por novas gerações:
“Filme Triste”, versão brasileira de “Sad Movie”, tornou-se um clássico absoluto, tocado incansavelmente nas rádios da época.
“Festa do Bolinha” virou trilha sonora de uma juventude que descobria a liberdade, a dança e o amor.
“Meu Bem Lollipop” reforçou o lado pop e internacional do grupo.
Em todas essas gravações, a presença de Regina Corrêa era essencial. Sua interpretação equilibrava emoção e técnica, sem exageros, criando uma proximidade quase íntima com quem ouvia.
Com o passar dos anos, o Trio Esperança expandiu sua atuação para fora do Brasil. A carreira internacional levou o grupo a apresentações e gravações na Europa, especialmente na Itália, onde Regina Corrêa passou a viver grande parte de sua vida adulta.
Essa mudança não representou um afastamento da música brasileira, mas uma ampliação de horizontes. Regina levou consigo a musicalidade do Brasil, ajudando a apresentar ao público europeu uma estética vocal refinada, marcada por harmonia e sensibilidade.
Abaixo, trechos de duas faixas do Trio Esperança
Ao longo da trajetória do Trio Esperança, algumas mudanças aconteceram. Em 1968, Evinha deixou o grupo para seguir carreira solo, e outras formações surgiram ao longo do tempo. Ainda assim, Regina Corrêa permaneceu como símbolo da essência original do trio.
Mesmo longe dos grandes holofotes nas décadas mais recentes, sua importância nunca foi esquecida por pesquisadores, colecionadores de vinil e amantes da música brasileira dos anos 60 e 70. Regina sempre foi lembrada como parte fundamental de um capítulo precioso da nossa história cultural.
A morte de Regina Corrêa, em Roma, comoveu fãs, músicos e jornalistas especializados. As homenagens destacaram não apenas sua trajetória artística, mas também sua postura discreta, elegante e profundamente comprometida com a música.
Não foi uma artista de escândalos ou excessos. Foi, acima de tudo, uma cantora que acreditava na força da melodia, no poder da harmonia e na emoção simples — aquela que chega sem pedir licença e permanece.
O Trio Esperança ocupa um lugar especial na música brasileira. Mais do que um grupo de sucesso, eles ajudaram a introduzir no país uma estética vocal que dialogava com o doo-wop, o soul e o pop internacional, adaptando esses estilos à sensibilidade nacional.
Regina Corrêa foi peça-chave nesse processo. Sua voz ajudou a criar pontes entre gerações, entre o Brasil e o mundo, entre o rádio, a televisão e os discos de vinil que hoje são verdadeiros tesouros.
Na Rádio Na Era do Vinil, as canções do Trio Esperança seguem tocando como testemunhas de um tempo em que a música era feita para durar. Ouvir Regina Corrêa hoje é reencontrar tardes de domingo, programas de auditório, encontros familiares e a trilha sonora de um Brasil mais inocente — mas profundamente criativo.
Sua partida encerra um ciclo, mas reforça a importância de preservar a memória dos artistas que ajudaram a construir a identidade musical do país.
Regina Corrêa se despede fisicamente, mas sua voz permanece. Permanece nos sulcos dos discos, nas playlists, nas lembranças e no afeto de quem viveu — ou aprendeu a amar — a música brasileira através dela.
Na Era do Vinil, seguimos como guardiões dessa memória.

No vídeo abaixo, trecho da entrevista que Regina Corrêa deu ao jornalista Sergio Baldassarini, nas comemorações pelos 50 anos da Jovem Guarda.






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